O compositor em seu ofício


Compor é algo realmente singular. O compositor em seu oficio é um escultor.

Recentemente em um debate até certo ponto desnecessário, revi um preconceito musical que havia esquecido. E tudo começou na afirmação de um participante enaltecendo sua admiração por segundo ele o "maior compositor brasileiro". Chico Buarque, era o personagem.

Havia nessa mesa redonda especialistas em música, alguns compositores, músicos, e educadores. Um especialmente revoltou-se com a afirmação, eloquente, negou-se a conferir a Chico Buarque sequer o status de compositor. Segundo sua afirmação, apenas eruditos são compositores, e "não se pode comparar a complexidade de uma obra sinfônica a uma mera canção".

Discordei.

Realmente há uma complexidade estética em uma obra sinfônica, um conhecimento organológico, questões de andamento, questões de desenvolvimento, questões de forma, intensidade, e expressividade.

A canção em sua simplicidade possui na síntese algo extremamente atrativo.

Não entendi bem se a questão do personagem estava implícita a Chico Buarque - por questões e opções políticas, ou se era algo amplo ao ofício do compositor popular. Perguntei. E o personagem afirmou quase bufando que era uma questão da classe, e não a um compositor popular em específico.

Compor é organizar sons constituindo ambiência em relação com o consciente e com o inconsciente. Propondo significância e significados.

Um compositor popular sim, necessitou da gravação por assim do mercado fonográfico e hoje da internet para poder perpetuar sua obra. Um compositor erudito vem utilizando da linguagem musical escrita, a partitura, para desenvolver e perpetuar sua obra. Ambas funcionais a arte dos sons.

Qual a relevância de separar um e outro se quem faz o ofício da composição é o imaginário? Se o imaginário está materializado em versos, linhas melódicas monódicas, em notas, ou frases elaboradas que exploram todo instrumento, se em gravações ou pautas?

Tanto faz.

Poderia ter havido em trovadores grandes compositores melodistas, alguns nos chegaram poetas pelo esvaziamento de suas linhas melódicas. Sumiram com o tempo as canções no embrião da poesia.

Compositores eruditos de renome compuseram canções. E não são maiores nessas composições que um Chico Buarque, ou um Tom Jobim.

É apenas uma parte. É apenas uma forma.

E esse conflito erudito e popular está mais que ultrapassado.

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