Lirismo


Como ouvinte procuro conhecer cada novo trabalho, de cada novo artista, ou consagrado, que produza obras que fazem parte dos gêneros e estilos que dedico meu trabalho artístico.

Durante a semana passada dediquei-me a ouvir a discografia completa de determinado artista,

uma ampla discografia que possibilita tratar como Obra.

Há ali uma história de 15 anos de produção fonográfica ininterrupta em gêneros variados - alguns da música brasileira e outros de origem norte-americana. O estilo prioritariamente Jazz - música improvisada -, e que mesmo hoje para esse artista predispõe apresentação de uma melodia, e improvisações - ora coletivas, ora individuais.

Dediquei meu disco Descompassado, o Coletivo São Paulo-Milào, o Cantilena, e o meu primeiro disco Lado Brasil, a essa estilística. No entanto, apenas com gêneros brasileiros. Há na brincadeira uma pitada de humor no tema "Não jazz", um swing invertido, brincadeira nossa, com meu saudoso amigo Azael Rodrigues no Cantilena.

Ouvi continuamente esse artista, e lá há melodia, há harmonia, há ritmo, há texturas. Ao fim da audição do que imagino seja o primeiro disco fui ao último, voltei ao primeiro, fui ao segundo, repeti a audição, até completar os quase vinte álbuns. Não sabia o que me desagradava se como ouvinte e compositor gosto de texturas harmônicas e gosto de melodias densas.

Parei, no dia seguinte recomecei incomodado a audição. O que seria?

Sobra lirismo na música brasileira. Mas na música desse artista, que não sei se qualificaria como brasileira apenas por ter sido feita por um brasileiro, não há lirismo. Concluí.

Se falta lirismo em um músico com esse gabarito, como educador eu percebo que falta lirismo no estudo, na prática, na forma de constituir o conhecimento musical. O lirismo pode ser aperfeiçoado a partir da técnica consolidada do instrumento - prática fisiológica, mas é obtido por experiência estética - ouvindo.

E mesmo que regada de texturas divergentes, de uma melodia repleta de compressores psicológicos, surge equidistante na memória do ouvinte. É só.

Mais lirismo por favor.

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